Os catadores de material reciclável da região têm trabalhado mais e ganhado menos nos últimos meses. A queda do rendimento varia entre 40% e 50%, levando muitos trabalhadores a buscar outras atividades como forma de complementar o orçamento. Mas alguns ainda mantêm a esperança de que os bons tempos possam voltar.
A coordenadora da cooperativa Vila Popular, de Diadema, Vilma Moura de Souza, é uma das otimistas. "Gosto do que faço, e espero que as empresas voltem a comprar para que nossa vida volte ao normal. Mas muitos estão sem paciência e outros já estão indo em busca de novos empregos", observa. "Temos de trabalhar dobrado para retirar um salário próximo do que ganhávamos. Antes tirávamos R$ 500, R$ 600. Agora, o rendimento está abaixo de um salário mínimo", explica.
Os valores de todos os materiais caíram. Vilma diz que um quilo de papelão passou de R$ 0,80 para R$ 0,23. Um fardo de garrafas pets prensadas caiu de R$ 1,10 para R$ 0,75. "Há produtos que os catadores nem têm pegado, como o mistão - papel que parece papelão, usado na embalagem de pizza", diz.
O presidente da Cooperpires, José Gomes Aveiro, afirma que o maior problema dos trabalhadores tem sido a queda da hora trabalhada. "Tivemos uma redução de R$ 0,70 para R$ 0,50 por hora trabalhada."
O ex-jardineiro Aguinaldo Santiago, 40 anos, de Santo André, também tem reclamado dos valores baixos pagos pelo material. "Trabalho há dez anos recolhendo material reciclável e nunca se pagou tão pouco", reclama Santiago, que tem sobrevivido às custas do salário de sua mulher, que trabalha como empregada doméstica. "Meu dinheiro está sendo apenas um complemento para nossa renda", lamenta.
Mercado - Os preços do plástico das garrafas pet, das latinhas de cerveja e refrigerante encontradas no chão e do papelão que servirá para novas embalagens caíram junto com o valor fixado no mercado internacional para commodities como derivados de petróleo, alumínio e celulose.
O professor e doutor em resíduos Paulino Coelho diz que a queda acontece porque há um desperdício muito grande dos produtos recolhidos. "Nem tudo é aproveitado por causa da contaminação. O custo da limpeza é muito alto. Por isso, muitas empresas preferem ficar com a matéria-prima, que também teve queda. Tudo é uma questão mercadológica", explica.
Pesquisa aponta melhora nas condições de vida de cooperados
Mesmo que a renda tenha diminuído por causa da crise financeira mundial, que atingiu também o preço das sucatas, as condições gerais dos catadores de material reciclável no País melhoraram. O diagnóstico parte de uma pesquisa realizada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) junto a integrantes de cooperativas de catadores de materiais recicláveis.
O questionário foi respondido por 59% dos 2.032 catadores que trabalham em cooperativas apoiadas pelo BNDES. As respostas mostram que houve melhora no relacionamento familiar (82%); nas condições de higiene dos cooperados (79,6%); na alimentação dos cooperados e da sua família (78,85%) e no conforto das moradias (69,3%).
A pesquisa também detectou melhora na eficiência das cooperativas. Os dados apurados sobre a gestão operacional demonstraram que houve aumento dos objetos coletados (20,6%), do material processado (25,5%) e da capacidade de processamento.
O valor do apoio no primeiro ciclo de operações totaliza R$ 21,6 milhões e a previsão para o segundo ciclo é de R$ 16,9 milhões. Até o presente momento, foram liberados recursos para 26 cooperativas do primeiro ciclo, no montante de R$ 9,4 milhões. Os projetos dos dois ciclos estão distribuídos em 47 municípios de oito Estados. Estima-se que 3.200 catadores serão beneficiados.
Grande ABC - De acordo com a Prefeitura de Diadema, o município já possui um projeto aprovado pelo banco para ampliar a produção do ecovaral, da Cooperlimpa.
A cooperativa vai tomar empréstimo de R$ 600 mil para permitir a compra de máquinas, prensa, equipamentos em geral e computadores.
A Prefeitura de Mauá, juntamente com a Cooperma (Cooperativa de Trabalho dos Profissionais em Reciclagem de Materiais de Mauá), também já enviou projetos com o intuito de angariar verbas do BNDES. Um deles, no valor de aproximadamente R$ 200 mil, será destinado à compra de equipamentos.